Três histórias de mudança e desapego 3) Começar de novo

Resumo da semana passada: O roubo dos móveis e a venda da chácara em Brasília, a despedida final da cidade, e um balanço do que tem importância e deve permanecer


Dez anos para construir um pequeno paraíso e tudo acaba. A vontade que eu tinha era não construir mais nada, comprar mais nada. Deixar o dinheiro da venda da chácara aplicado para sempre, e viver dos rendimentos. Mas fiquei insegura. Dinheiro na mão é um perigo. Evapora rápido, ao contrário de um imóvel, que tem solidez e nunca deprecia. Com a perda do aluguel, vi que a aposentadoria só cobria as despesas básicas. Teria que viver ainda com menos, se não quisesse gastar sem repor tudo o que eu conseguira juntar com o meu trabalho. Mas uma coisa é viver com pouco, outra coisa é passar necessidade. Isso eu não queria. Já fui pobre várias vezes, detestei.

Cheguei a pensar em sair de Paraty, onde o custo de vida é alto, e os imóveis, caríssimos. A Receita Federal me obrigava a comprar algo com o lucro obtido na venda da chácara, mas era difícil encontrar alguma coisa por tão pouco em Paraty. Um terreno longe de tudo, talvez. O agravamento da crise político/econômica do governo me ajudou. Os preços começaram a cair e consegui comprar um lote no bairro onde moro, que é central e à beira-mar. Foi como se eu tivesse tomado testosterona na veia. Fiquei com o maior tesão de construir de novo, de por em prática a ideia da ASVPQP (Associação Senil Vovô é a Puta que Pariu) e criar a residência comunitária imaginada lá atrás.

Cheguei a convidar alguns amigos para comprar outros terrenos em volta do meu, fazer um projeto comunitário maior. Mas todo mundo tem medo de arriscar. A teoria, na prática, é muito assustadora. Então, como quando fiz a chácara, resolvi fazer tudo sozinha de novo. Desta vez, quatro casinhas pequenas, uma para mim, três para alugar. E um lindo espaço coletivo, com sala para ginástica/ioga, cozinha gourmet, “home theater” e até horta. Sem me descapitalizar de todo, crio uma nova fonte de renda e realizo um projeto que, se não funcionar, é fácil de ser revertido, ganhar outra destinação.

PAONKOVÔ? Encontrei finalmente a resposta. No fim do setênio iniciado aos 55, minhas casinhas já estarão prontas, minhas gatinhas caminharão felizes pelo deck de madeira que contornará um lago de mangue e unirá todos os espaços. Quem quiser ficar sozinho, terá seu espaço. Quem quiser companhia para o café da manhã, o vinho da noite e a apreciação do luar, terá também. A proposta é que a pequena comunidade tenha um único carro, e que as despesas coletivas sejam divididas. Já tem muita gente querendo compartilhar dessa experiência comigo. E eu tenho a liberdade de escolher os que estão sintonizados no mesmo propósito.

O projeto “Morada dos Pássaros” ainda está sendo detalhado por uma equipe de jovens arquitetos, que acatou todas as minhas ideias sobre permacultura, fossas ecológicas, aproveitamento do mangue, horta no terraço, filtragem das águas cinzas, coleta de água de chuva, leveza e simplicidade. Descobri que passei por uma peneira grossa tudo o que eu tinha experimentado até essa crise do envelhecimento, descartei muita coisa e retomo ideias essenciais para a minha felicidade: um bom lugar para viver, o grupo social com projetos semelhantes, os bichos de estimação, o convívio com a natureza, o cultivo de hortas e jardins. Quando a obra começar, postarei aqui um diário dela, para dividir com vocês a retomada de um sonho. E aos 62, fim do setênio, festa de inauguração da nova casa. Vai ser lindo.

Balanço da crise dos 60: aprendi a viver com pouco, fiquei mais paciente, mais tolerante, mais forte, mais alegre, mais saudável. Troquei o carro pela bicicleta. Mudei hábitos alimentares. Fiz novos amigos, gente ligada aos esportes, à natureza, à música, ao cinema. Perdi o medo de envelhecer, me apaixonei pelo mar, quero surfar e guiar barcos. Achei minha veia artística em cursos de arte, literatura e fotografia. Dupliquei minha energia de vida com novas atividades físicas e antigos trabalhos domésticos, dos quais me empenho como se brincasse de casinha. Tudo num ritmo natural, sem competições ou imposições externas.

Conclui que para manter a felicidade é necessário zerar a vida de vez em quando, desfazer-se do que já deu lodo, mofo, ferrugem. Tomar consciência do que somos, não se deixar influenciar por modismos, pensar por conta própria, se amar, se respeitar e se cuidar. As recompensas vêm com tempo. Importante é deixar fluir.

Fim


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