Três histórias de mudança e desapego

No “debu” da terceira idade, por volta dos 56, eu me perguntava, pela oitava vez na vida: “Onkotô? Donkovim? Paonkovô”? Isto é uma piada sobre a crise existencial dos mineiros que, traduzindo, é a de toda humanidade, desde sempre: Onde estou? De onde vim? Para onde vou? Essas três questões filosóficas básicas incomodam a todos a cada sete anos, segundo os homeopatas, ou a cada dez, de acordo com a astrologia. Começamos a refletir sobre isso – e a sofrer pela falta de respostas – por volta dos sete anos de idade, quando aprendemos a ler e a escrever.

Por conta desse primeiro grande feito, a realidade à nossa volta se amplia e nossos pais se apequenam um pouco. Isso gera insegurança e medo. Depois vem a crise da adolescência, com o desejo de liberdade e o pânico de crescer. Aos 21, o desafio da carreira a escolher; aos 28, o desejo de casar, de constituir uma nova família; aos 35, a constatação de que a juventude não é eterna; aos 42, o tal check-mate da maternidade; aos 48, a falência dos ovários; aos 55, cansaço físico e mental pedindo pausa. Menopausa.

Era aí que eu me encontrava quando as três perguntas básicas voltaram. Eu estava num bom momento da carreira, trabalhava na maior empresa de comunicação do país e recebia o melhor salário de todos os tempos; tinha vindo de Minas para Brasília há quase trinta anos, e me estabelecera na capital sem nostalgia da origem. Morava numa linda chácara, erguida do nada com recursos próprios. Não tinha dívidas nem débitos. Acima de tudo, era livre. Escapara da crise dos trinta, que nos empurra cegamente para um conceito geral de que felicidade só é possível com marido e filhos. Tinha construído uma vida diferente, e me sentia abençoada pela ausência de problemas que uma família proporciona, por melhor que seja. Mas uma fresta se abria naquela estrutura de estabilidade financeira e emocional, e eu previa um tsunami.

Estava sufocada por um sentimento constante de aprisionamento. Havia me engendrado num modelo de vida que tolhia minha liberdade. Por que morava em Brasília, tinha que ter carro; por causa da chácara, tinha que ter empregados; o meu horário de trabalho coincidia com minha hora de dormir, comia quando devia estar deitada. Meu organismo dava sinais claros de que entraria em colapso físico e mental. Para me manter estável e em forma, investia o tempo e o dinheiro que sobravam em tratamentos alternativos, academias, aulas de Ioga, massagens, retiros de meditação. Era combate de incêndio com fogo. E eu me chamuscava cada vez mais.

No dia em que acordei assustada e voltei para o plantão achando que amanhecia, quando o dia findava em cinza chuvoso, busquei ajuda na terapia. A psicóloga me sugeriu dobrar um papel e escrever, de um lado, tudo o que me deixava feliz e, do outro, tudo o que me incomodava naquele momento. Conclui que o que me dava alegria e satisfação não estava necessariamente ligado ao trabalho; e o que me fazia infeliz estava diretamente ligado a ele. Aí veio a pergunta que me fez tomar a decisão de chutar o balde: “Se você pedir demissão, o que você perde”? Financeiramente, perderia os tais quarenta por cento do Fundo de Garantia e um plano de capitalização que a empresa pagava para quem se aposentasse por lá. Era um dinheirinho razoável. Se eu esperasse chegar aos 60 anos seria mais lucrativo para mim.

Mas eu temia morrer de uma hora para outra, de um ataque do coração ou dos nervos. Precisava me salvar para viver bem a velhice que se aproximava. Ninguém merece continuar na batalha depois de 35 anos de trabalho. A não ser que queira. Os meus 57 anos foram gastos na preparação da mudança. No trabalho interno de desconstrução da identidade de jornalista, na quebra de toda vaidade ligada à profissão. Eu a tinha exercido com paixão, mas sem a pretensão de fama, poder e glória. Não seria muito difícil largar o osso.

Assim, em 31 de dezembro de 2011, em mais um plantão de Reveillon, decidi que minha resolução de ano novo seria pedir demissão do emprego. Sem nenhuma ideia do que faria depois. Queria apenas voltar a ser dona do meu tempo, desfrutar da minha casa, tomar tento das minhas coisas, dormir e comer nas horas certas, acordar depois das oito, tomar café com calma, desacelerar. Fui passar meu 58º aniversário na Índia, numa viagem que incluiu tratamentos Ayuverdas, comida vegetariana, visitas a templos e muita Ioga. Era como se eu estivesse me despressurizando, soltando devagarzinho o ar que eu havia prendido nos pulmões todos aqueles anos.

Quando voltei, ainda havia stress para expelir. Pedi uma simulação de aposentadoria proporcional e vi que ela seria mais ou menos um quarto do que eu ganhava. Se quisesse abandonar de vez a profissão teria que me desprender de muita coisa que conquistara graças a ela. Teria que reaprender a viver com pouco. Cortar todos os excessos. Exercitar o desapego refletindo sobre tudo o que eu tinha e me indagando: Preciso realmente disso? Posso viver sem isso? O oitavo setênio havia chegado ao ápice.

(Na próxima semana, a segunda parte: Donkovim? O exercício do desapego com a ajuda de um ladrão)



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