Quando a mãe envelhece

Acabo de fazer um curso intensivo de envelhecimento. Com minha mãe, que veio passar uns dias comigo em Paraty. Há três anos ela esteve aqui, e me acompanhou em trilhas leves, de um a dois quilômetros. Andou pelas pedras do Centro Histórico sem se queixar e, certa noite, achando que eu a enrolava para não acompanhá-la à igreja, marchou sozinha para a Matriz, sem se perder nas ruas tortas da cidade. Encontrei-a sentada no banco da frente, cantando a música de abertura da celebração, embevecida na sua fé.

Estava com 75 anos e tinha completo domínio de si, segurança no andar e no falar, senso de humor e uma curiosidade quase infantil. Era uma companhia divertida, que bebia cerveja e observava tudo, manifestando opinião sobre pessoas e coisas, com sensatez e sabedoria. Num intervalo de tempo tão curto, transformou-se completamente. Escuta pouco, o que a deixou insegura para viajar desacompanhada, assustada com o desconhecido, calada e absorta. Queixa-se de uma dor no quadril que a impede de andar como antes. E não manifesta as mesmas emoções de antigamente.

Em três anos minha mãe envelheceu dez. Ainda não fez 80 e já apresenta sinais de um possível Alzheimer, como apatia, desinteresse, sonolência, ausência, memória fraca e cansaço físico após um mínimo de esforço para a sua idade não tão avançada. O que acelerou o processo? Não sabemos. Talvez as dores nas pernas e no quadril advenham de um esmagamento do cóccix num simples solavanco de carro ao passar por um quebra-molas, oito ou dez anos atrás.

O silêncio e a apatia teriam nascido de uma depressão causada por algum desgosto? A morte de um neto, os altos e baixos de tantos filhos? O fato é que ela não é a mesma. Perdeu a coragem, a disposição, a vibração pela vida. Desorienta-se em casas alheias e apavora-se diante de desafios mínimos, como temperar a água de um chuveiro com aquecimento a gás ou energia solar.

Levei-a para passear por lugares desejados, como Aparecida do Norte, em São Paulo, e o Cristo Redentor, no Rio. O esforço das viagens transformou os programas em um quase sacrifício. No Museu do Amanhã, não se interessou por nada, o que é compreensível, dada sua baixa escolaridade. Mas a curiosidade de uns anos atrás a teria feito curtir uma exposição ou outra. Entretanto, mostrou-se entediada e louca para voltar para casa. E dormir.

Mais surpreendente ainda foi constatar uma total falta de apetite para comidas e bebidas, o que era um prazer para ela. Tanto gostava de comer quanto de cozinhar. Fazia salgados para vender, adorava doces e apreciava os pratos suculentos da cozinha mineira, que sabia fazer muito bem. Agora, se não lhe dermos nada, come qualquer coisa para matar a fome, como se houvesse perdido o olfato e o paladar. E não frita um ovo, se precisar. Espera ser servida, humildemente e a qualquer hora, sem manifestar desejo por algum prato específico.

Além de agendar novas consultas para ela – com um psiquiatra e um ortopedista – e de orientá-la a acrescentar pelo menos uma massagem por semana às já regulares sessões de pilates, não temos muito o que fazer. Fisicamente, minha mãe está saudável. Não sofre de diabetes, taxas de colesterol e de triglicérides normais, já toma remédios para hipotireoidismo e hipertensão, enfim, não é por falta de cuidados que antecipa os sintomas de um envelhecimento que promete dar trabalho.

Desconfio, inclusive, que é por antever isso que minha mãe dorme tanto. Para nos poupar de ter que ajudá-la cada vez mais. É como se ela tivesse vergonha das transformações físicas e mentais que estão ocorrendo, medo de virar estorvo, humilhação por deixar de ser produtiva. São sentimentos que nos perseguem, à medida que envelhecemos. Também tenho pavor da dependência. E, ao ver minha mãe entrar tão cedo nesse processo de decrepitude, sinto o peso do inevitável sobre nossos destinos.

Não há como maquiar a realidade do envelhecimento. Temos que aprender a enfrentá-la, fazendo o que for possível para prevenir doenças e evitar sofrimentos extras, cientes, no entanto, que não temos controle de nada. Somos frágeis e vulneráveis, nada de culpa! O alívio é que podemos - isso sim - reforçar em nós sentimentos de amor e compaixão, para trilharmos com paciência o trecho final da nossa jornada. Cuidando com carinho dos que precisam de ajuda, aceitando sermos cuidados, quando chegar nossa vez.


PS: Minha mãe agora está ótima. Nós a levamos a vários especialistas, e os exames deram todos bons. Constatou-se que ela estava se descuidando do remédio para controle do hipotireoidismo, daí a sonolência. O geriatra havia receitado um antidepressivo leve, o que a deixou um pouco abobalhada. Agora, o antidepressivo foi suspenso e entrou-se com nova medicação para hipotireoidismo e um outro para pressão alta. Resultado: uma mãe alegre de novo. Lição que fica: não devemos aceitar de pronto os sintomas da velhice. Procurar ouvir dois ou mais especialistas e buscar a fonte da alegria todos os dias.

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