No lado esquerdo do peito

Um amigo muito amado entra hoje na casa dos 50. Escorpião teimoso, determinado a viver e a ser feliz. Se fôssemos irmãos, não seria tão bom. Estamos juntos há quase três décadas. Tivemos inúmeras alegrias e alguns sustos. Choramos juntos, rezamos juntos, nos salvamos em várias ocasiões: da morte, da dor, do desemprego, do desamor, das decepções. Brigamos também, não muito. O suficiente para aprendermos um com o outro e a reforçar ainda mais nossa amizade.

Embora mais novo que eu quase doze anos, meu amigo é reflexivo e profundo. Temos altas conversas sobre política, religião, saúde, crises existenciais, relacionamentos. Ele é passional. Eu, um pouco cartesiana. Ambos somos impacientes e intolerantes, mas nos equilibramos nas antipatias e conseguimos enxergar os outros e nós mesmos com quatro olhos e dois corações.

Podemos viver longe um do outro, sem morrer de saudade. Mas toda alegria e toda descoberta nova eu compartilho com ele, porque ele é o melhor companheiro para essas coisas de felicidade. Entre nós o tempo não cria vácuo. É tudo moto-contínuo, risadas e choros, discussões e gentilezas, brincadeiras e ironias, mau humor e afagos.

Por causa dele ando de bicicleta, acompanho futebol e assisto novela. Para me acompanhar ele salta pedras, faz trilhas, rema, pratica ioga. Ele me ajuda a lidar com celulares e computadores, corrige meu inglês. Eu o obrigo a limpar a casa, cozinhar, levantar da cama, ir para a rua. Trocamos impressões sobre os livros que lemos, as músicas que ouvimos, os filmes que assistimos. E se viajamos juntos, vamos em velocidade de paisagem, aspirando a beleza do mundo.

Não meço o amor dele em relação a mim, mas eu seria capaz de lhe doar a medula. Um rim. Um pedaço do fígado, se ele precisar. Meu querido amigo não tem medo de nada, só de morrer. Eu também quase não tenho medos, só de ficar inválida, dependente, gagá. Quando somos assombrados por esses temores, nos damos as mãos como duas crianças no escuro da noite, assustados com a responsabilidade de viver. E nos consolamos com o nosso afeto.

É um privilégio caminhar pela vida ao lado de pessoas assim, que já entenderam o significado de todos os mistérios e, por isso, seguem confiantes, curtindo a jornada. Também é confortador saber que, mesmo distantes fisicamente, continuamos ao alcance de nossos chamados, de nossos pedidos de socorro, de nossos abraços. Sempre disponíveis para escutas, confidências, desabafos e apoio incondicional. Até o fim de nossos dias, e mais além, se além houver.


Flavinho e eu, no balanço do mar


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