Invisto em felicidade, não em plano de saúde

Há cinco anos venho exercendo o desapego, simplificando a vida e me preparando para uma velhice serena. Cortei vários gastos, e um deles foi com planos de saúde. É um investimento muito alto para os aposentados comuns, mas a maioria se sacrifica, com medo da má fama do SUS. Ora, milhões de brasileiros são atendidos pelo serviço público de saúde, porque não eu? Que diferença faz estar doente num hospital com cara de hotel ou numa Santa Casa de Misericórdia? Vai ser ruim de qualquer jeito, e eu terei que aprender na hora a lidar com a situação. Por isso não vou investir na possibilidade de tragédias e doenças futuras, da mesma forma que não vou comprar jazigo em cemitério nem plano de cremação.

Aprendi, finalmente (ufa, como demorou!) a viver apenas no presente, cada dia com suas surpresas. Relaxei. Gasto tempo e dinheiro na promoção do meu bem-estar, não na prevenção de doenças. Envelhecer, adoecer e morrer faz parte do ciclo da vida. Somos impermanentes, transitórios e vulneráveis como qualquer animal ou flor. Quem inventou esta história de prolongar a vida das pessoas até o limite máximo do sofrimento delas – e de quem as ama?

O capitalismo, claro! A indústria farmacêutica e o conceito de hospital/hotel. Se tivéssemos avançado socialmente, já teríamos a morte assistida, como na Holanda, na Suíça e em outros países mais civilizados que o nosso. Aqui, o que prevalece – e cresce cada vez mais – é o mito da eterna juventude, da saúde perfeita e da imortalidade. Mentiras que nos contam para nos fazer gastar dinheiro. Se eu pagasse um plano de saúde hoje, teria que investir cerca de R$ 1.200,00 por mês, ou seja, o equivalente ao aluguel da minha casa e um terço da minha aposentadoria.

Para que? Para o caso de um dia eu adoecer gravemente ou sofrer um acidente? Para isso existe o SUS, já contribui para ele, tenho direito. Os planos de saúde são feitos para os sãos, não para os doentes. Quem tem uma doença grave tipo AIDS, Diabetes, problemas cardíacos, qualquer coisa autoimune como Lúpus ou Esclerose, vai ter que esperar dois anos para receber tratamento. Ou, então, pagar uma fortuna antecipada para o caso de precisar de internação. Caso não saiba que tem a doença e ela aflorar antes desse prazo de carência, ai , ai, ai...só a justiça para resolver o problema. Num país como o nosso, melhor contar com a sorte que com a justiça.

Prefiro aplicar o dinheiro que gastaria com o seguro-saúde e usá-lo no que realmente previne doenças: felicidade. Com o investimento, dou-me certos mimos e posso pagar pelas consultas e pelos poucos exames que ainda faço. Não são tão caros como nos levam a crer. Por ano, gasto o equivalente a uma única mensalidade de um plano de saúde, que nem funciona tão melhor que o SUS. Tem gente esperando três meses para agendar uma consulta e as emergências dos hospitais particulares lotam tanto quando a dos hospitais públicos.

Além do mais, quem tem plano de saúde fica hipocondríaco. Para compensar o investimento, vai a médicos por qualquer enxaqueca, deixa de se observar, de conhecer o funcionamento do corpo e da mente. Só acredita em exames, remédios e vacinas. Os brasileiros vão à farmácia como quem vai ao supermercado. Usam até cestinha. É o povo que mais se automedica no mundo. Os efeitos colaterais costumam ser piores que a doença. E ainda há a mistura de fármacos com fármacos e desses com álcool. É muito perigoso. Não me arrisco.

Se um dia precisar, é ao SUS que recorrerei. Mas prefiro cuidar de mim mesma, sem negligenciar sintomas de que alguma coisa não vai bem. Saúde é questão de autoconhecimento, de genética e de bons hábitos. Procuro me alimentar com consciência, de forma saudável e sem excessos. Só bebo em festas. Não fumo. Durmo oito horas e até mais, quando estou muito cansada. Aposentei o carro, só ando a pé ou de bicicleta. Faço atividades físicas regularmente, além de yoga, que gera profundo bem-estar. Evito stress e ansiedade com as contas equilibradas. Não gastar mais do que se ganha é fundamental para uma velhice tranquila, e distinguir desejo de necessidade proporciona segurança financeira. Enfim, caminho respirando fundo, sem me preocupar demasiadamente com o futuro. No fim da estrada é a morte que encontrarei. Que eu saiba aceitá-la, num exercício final de desapego.


Foto: Márcia Lage

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