Inventário do envelhecimento

A conversa era sobre preconceito, e minha nova amiga caiçara (muito bonita e 17 anos mais jovem do que eu) saiu-se com a seguinte frase: “...até velhas de olhos verdes como você são vítimas de preconceito!” Hã????? Como assim, basicamente? Preconceito porque sou velha? Ou porque tenho olhos verdes? Ou, porque, apesar dos olhos verdes, não passo de uma velha?

Não entendi a relação. Passei a noite com a palavra “velha” retumbando na cabeça. Não havia me dado conta da percepção dos outros sobre a minha idade. O meu bem-estar com a vida que escolhera aos 58 anos era tamanho que me encontrava “vuelta a los 17”*. Minha nova paixão era o SUP (Stand-Up Padle), que praticava três vezes por semana. Andava a pé e de bicicleta, explorando um lugar cheio de novidades, num processo total de renovação. Sentia-me com 40 anos, no máximo.

Na aula de ioga, tirando uma dificuldade aqui, outra ali, era tão flexível e leve quanto as garotas de vinte anos ao meu lado. Aliás, aquele gatinho aparentando 25 estava tão travado que, perto dele, eu era uma bailarina chinesa. Perscrutei minha alma durante a meditação final, o “Shavásana”, e não encontrei nenhuma ruga. Meu coração, também, estava intacto, carregado de boas emoções.

Peguei então o espelho, para enxergar-me com a crueldade do olhar alheio. Sim, havia uma velha brotando naquela boca sem mais contornos, naquele perfil onde o nariz arrebitado começava a cair. Os olhos, sim, continuavam verdes, mas nem as duas cirurgias de pálpebras que eu havia feito, uma aos 45, outra aos 55, davam jeito na lateral que despencava, formando uma vírgula que me deixava com cara de cachorro esfomeado. As sobrancelhas, redesenhadas com henna por causa dos pelos já escassos, estavam mais para ridículas que para bonitas. Entre elas, uma ruga de expressão que vinha desde o berço dava-me ares não mais de brava, mas de contrariada, cansada, quase triste até.

Isso me deixou intrigada, porque aquela expressão contradizia minha paz interna, minha disposição de viver, minha alegria e bom humor. Estranho, muito estranho...teriam os cirurgiões mudado meu olhar, ou estaria meu olhar antecipando uma tristeza que eu ainda não sentia? Abri um sorriso de orelha a orelha para ver se a expressão melhorava. Pareceu o Roberto Carlos rindo. Lábios finos e rasgados, mostrando apenas a ponta dos dentes, também esses, confesso, já mexidos e remexidos por dezenas de dentistas.

Veio-me à memória o poema “Retrato”, de Cecília Meireles. “Em que espelho ficou perdida a minha face?”, declamei. Estaria a poeta beirando os 60 quando o escreveu? Se ela morreu aos 63, tinha apenas cinco anos a mais do que eu naquele momento. E, no entanto, eu estava tão jovem, tão saudável...morreria feliz aos 63? Ou daqui a pouco, quando fosse remar? Estava pronta a minha vida? Já podia apagar a luz e sair de cena?

“Ainda é cedo amor, mal começastes a conhecer a vida”, cantarolei a caminho da praia, onde encontro os novos amigos do clube do SUP. Levanto sozinha a prancha de uns 10 quilos, mais de dois metros de comprimento, quase um metro de largura no meio, e atravesso a rua com cuidado, olhando para a direita e para a esquerda, para evitar acidentes. Pareço uma formiguinha carregando uma folha de mangueira.

Pouso a folha na praia, no lugar aonde a onda quebra, e levanto a perna esquerda para colocar o “leash”, a corda que me mantém liga à prancha enquanto navego. Gosto das minhas pernas, gosto muito mesmo. Foram mais bonitas e torneadas, mas continuam fortes, sem varizes ou dores. Já que o dia é de inventário do envelhecimento, apalpo também as panturrilhas, duras de tanto andar. Sim, boas pernas, constato satisfeita. Ainda me levarão muito longe por aí. Gratidão!

Ajoelho sobre a prancha até atravessar as primeiras ondas e me levanto. De uma vez só, trazendo junto o remo. Acerto a postura, a postura firme da montanha,”Tadásana”: barriga e glúteo para dentro, coxas tesas, joelhos semidobrados. Remo duas vezes de cada lado, remadas lentas e longas, acompanhadas de uma virada completa do corpo. Aproveito o movimento para examinar as celulites. Felizmente o estrago é menor do que o que vejo nas mocinhas criadas a coca-cola e MaC’Donald.

Sigo mar adentro, entoando o hino de Paulino da Viola: “Não sou eu que me navega, quem me navega é o mar, é ele que me carrega como nem fosse levar”. Quando chego aonde quero chegar, onde as águas são mais limpas, frias e profundas, mergulho. O mar me abraça inteira, com seus braços verdes, quentes e salgados. Impossível não ser feliz. Se eu tivesse morrido naquele momento, teria sido uma linda morte. Serena, em completa harmonia com as naturezas, a minha e a que me circundava. Num estado de paz pelo qual trabalhara muito. E que finalmente encontrara.

Morrer aos 58 teria sido mais digno? Quando eu mal começara a desfrutar da vida com todo tempo e liberdade? Nada disso, querida jovem amiga. A colheita apenas se inicia. Quero disso muito mais. Se o preço são as rugas, a pele flácida, algumas manchas nas mãos e uma cara que talvez destoe da leveza da alma, pago com prazer. E ainda devolvo o troco a quem tem preconceito contra velhos. Eles que morram cedo. Na terrível idade entre o pavor de envelhecer e o desespero de ser jovem.

* “Volver a Los 17” – música de Violeta Parra, cantora chilena morta em 1967, sucesso de Mercedes Sosa nos anos 1970/80.




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