Espírito de Minas me visita

Espírito de Minas apareceu para mim dia destes; veio como no poema do quase conterrâneo (alguns anos eu também vivi em Itabira) Carlos Drummond de Andrade, “balançando entre o real e o irreal”, reavivando em mim “ao menos a metade do que fui na nascença e a vida esgarça”.

Sou mineira arrependida, pudesse ter escolhido onde aportar não teria sido nas gerais; acho que nem no Brasil dos dias de hoje. Minas foi uma pedra no meu caminho, que eu tive que aprender a contornar. Levou tempo. Sempre que volto ao Estado, suas montanhas me sufocam.

Sei bem porque, mas não vou falar disso. O Espírito de Minas que me visitou era bem de lá, do início de tudo. Trouxe coisas gostosas que não me pertencem mais: linguiça caseira, temperada com as mãos da minha avó, com certeza. Queijo fresco, salgado de véspera pelo meu avô. E goiabada cascão, feita por alguma tia no tacho de cobre da cozinha dos fundos.

Eu também “tive ouro, tive gado, tive fazenda”, e voltou tudo junto no embornal do Espírito de Minas. As brincadeiras e as brigas entre primos e primas no curral ao pé da varanda; o cheiro de estrume fresco nas manhãs de ordenha das vacas; o melado de cana perfumando as tardes de fabricação de rapadura. E o cheiro dele, meu avô, misto de capim gordura, rapé e suor.

O Espírito primeiro (foram dois a me visitar) era de uma prima cujo tempo revelou, no rosto já sexagenário, o retrato fiel da minha avó. E como a ser doida Minas não me inclina, contive o ímpeto de me deitar em seu colo e pedir um copo de leite quente com rapadura e um pedaço de requeijão derretido na panela de ferro.

Mal esse espírito da fazenda se afasta me aparece o outro, o da vila, que me trouxe uma garrafa de cachaça e notícias de todos os colegas de escola. A cidadezinha continua qualquer: Casas entre bananeiras, mulheres entre laranjeiras, pomar, amor, cantar. Um burro passa devagar, um homem passa devagar, um cachorro passa devagar. Devagar as janelas olham.

O fantasma me atualizou sobre a segunda e terceira gerações após a nossa, um pouco melhoradas, mas longe de lá. Nós chegamos até Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro. Eles já estão na Austrália, Nova Zelândia, Itália. Quem ficou amarga um tédio de se lançar da ponte. A cidade, com uma população estacionada há décadas em dois mil habitantes, tem um alto índice de suicídio. Talvez por falta de lazer. Ou do que fazer.

Não dá pra ter saudade de um lugar assim. Dele, o que sobrou – e muito – são essas amizades de tantos anos que, quando se encontram, tecem de novo velhas histórias, à sombra de recordações comuns. É engraçado ver em nossas caras, hoje, a cara de nossos pais e avós, a nos lembrar dos laços genealógicos e das brincadeiras que o DNA das poucas famílias daquele lugar fez ao se juntar umas com as outras, mantendo a tradição – e o atraso.

O encontro com os dois Espíritos de Minas revelou que, a exemplo de nossos antepassados, estamos envelhecendo bem, sem doenças e com ótima memória. Pregressa e atual. E que, se o DNA não falhar, passaremos dos 90. Na festa dos 70 de qualquer um de nós, ainda podemos juntar a galera toda. As baixas foram pouquíssimas em nossa trajetória até aqui. Deve ser obra dos ventos das gerais, “a soprar da azulada serrania” .


Foto: Jean Yves Donnard


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