A costureira que acumula juventude

Uma vida pode ser contada em cinco minutos. Fiz um elogio à passageira do ônibus que se sentou ao meu lado, uma distinta senhora na casa dos 70, e ouvi um relato muito parecido com a história de todas as mulheres daquela idade, que se casaram jovens demais e tiveram os filhos que a natureza mandou, sem domínio algum sobre o corpo e o destino. Principalmente mulheres do interior do Brasil, onde as tradições soterram por séculos os avanços da humanidade.

Ela deu boa tarde quando entrou no ônibus, na parada no meio do caminho, e comeu um lanche que havia trazido. Nada muito natural, o que não a impedia de ter um corpo saudável e bem constituído. Vestia-se com discreta elegância: calça branca de crepe e blusa estampada em preto e branco, colar imitando pérolas compondo o decote raso. Os cabelos tinham um corte de bom salão, estavam bem pintados de castanho escuro. Assim que acabou de comer, a senhora pegou o celular e me pareceu que trabalhava. Passou uns “zaps”, viu um ou dois vídeos, conferiu emails e mensagens e depois relaxou um pouco, de olhos fechados.

Eu também estava entretida com o meu telefone e não iniciei conversação. Quando já tínhamos viajado uma hora ou mais, ela ligou para alguém, para pedir que a buscassem na rodoviária. Foi quando me dirigiu a palavra, perguntando se eu sabia que hora chegaríamos. Eu respondi e ela transmitiu a informação ao interlocutor, guardando de novo o aparelho.

- Estou admirada da destreza da senhora com o celular, elogiei. Minha mãe se recusa a usar o dela. Queria muito que ela soubesse entrar nas redes sociais, para acompanhar as histórias dos filhos e netos, todos morando longe. Conversar com a gente pelas ligações de vídeo, pelo whatsApp, que é de graça, mas não teve jeito. Ela adora quando a gente mostra para ela as fotos e as fofocas do facebook ou do Instagram, mas não quer aprender nada. Quem ensinou para a senhora?

Ela não respondeu à pergunta. Virou-se para mim muito simpática e começou um relato mais ou menos assim: “Você não sabe o progresso que fiz para chegar até aqui. Aos 11 anos eu já era costureira. Aos 14 meu pai me casou com um homem mais velho que eu vinte anos. Ele tinha um sítio, fui vendida, praticamente. Com 15 eu tive minha primeira filha e aos 25 já eram sete crianças. Todas nascidas de parteira, com dores horríveis, sem luz elétrica, sem fogão a gás, uma vida miserável. Pra você ter ideia, a gente fazia as necessidades num latão com cal virgem. Quando enchia, jogava aquilo no mato. Banho de bacia, água trazida do córrego, todo mundo tendo que trabalhar para manter aquela vida sem conforto. Ai eu disse para o meu marido que precisávamos mudar para Belo Horizonte, para que as crianças pudessem estudar. Ele, ignorante, não quis. Então eu vim para cá sozinha, e pedi a um irmão dele, que já morava aqui, para me ajudar. Era muito nova e inexperiente, precisava de apoio. Ele me ajeitou um barraco de dois cômodos, eu larguei o marido na roça e costurei dia e noite, para dar comida, roupa e material escolar para meus filhos. Todos são formados hoje. Menos eu, que não tive tempo”.

- E a senhora já se aposentou?

- Que nada, minha filha, não deu para pagar o INSS. Ainda trabalho, e ainda ajudo o encosto do marido, que está todo doente. Ele tem uma aposentadoria rural, mas não dá nem para os remédios. Minha filha mais velha é quem cuida dele. Nunca mais moramos juntos. Você perguntou quem me ensinou a usar o celular: o aperto, minha filha, a necessidade. Sou meio ruim de internet, email, essas coisas. Uma moça me ajuda a ver as oportunidades de emprego, preenche as fichas de inscrição, acompanha tudo para mim. Dou aulas de corte e costura. Atualmente trabalho para o SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). Estou vindo de um curso de uma semana para moças da roça, como eu naquela época. O mundo não mudou muito para o trabalhador do campo. Também tenho contrato com o FUNPEN (Fundo Penitenciário Nacional) e dou aulas para presidiárias. Não tenho medo de entrar nas cadeias, a vida me deu coragem para enfrentar todas as dificuldades. Nos fins de semana, faço roupas de encomendas, pequenos reparos. Os estudos não me fizeram muita falta porque desde cedo tive uma profissão. A costura me libertou. É isso que digo às mulheres às quais dou aula: Tenham uma profissão, senão vão ser escravas eternas. Se a gente não tem independência financeira, vai ter que se submeter a alguém para viver. A liberdade é o maior bem que um pode ter. Mais importante, até, que a saúde, penso eu”.

Concordei com a cabeça, arrependida de não ter conversado com aquela senhora desde o início da viagem. O ônibus já estava na rodoviária, e só então nos apresentamos. Ela disse que se chamava Terezinha, tinha 72 anos. Desceu na minha frente, ágil e forte, carregando uma sacola cheia de apetrechos de costura. Fingi que esperava a mala só para continuar a ouvi-la. “Ali no bagageiro levo sempre duas máquinas de costura, faço uma cidade por semana. Não é fácil não. Mas é o que me sustenta, me distrai, me dá satisfação. Se eu não trabalhar fico deprimida”.

Apertei as mãos dela com sincera satisfação por tê-la conhecido. “Sua história é igualzinha à de minha mãe. Teve 11 filhos na roça, com ajuda de parteira, sem qualquer segurança ou conforto. Foi uma luta para estudar todo mundo, coisa que meu pai achava de vital importância. Hoje estão todos bem, e já são 13 netos e três bisnetos. Meu pai morreu antes dos 70. Ela completa 80 em dezembro. Estamos organizando uma grande festa”, informei na ansiedade da despedida. “Coincidência”, ela disse. “Eu também tenho 13 netos e três bisnetos. Também quero chegar aos 80 e até mais, se continuar com saúde. Dê um abraço em sua mãe. Diga a ela para nunca dizer que está ficando velha”. Nisso, me puxou para mais perto e declarou rindo: “Não ficamos velhas. Acumulamos juventude”. Virou-se em seguida para um jovem que se aproximava – talvez um dos netos – e se ocupou da preciosa carga que o trocador do ônibus havia posto no chão.



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